Todo transporte no continente é feito por estes vagões- caminhões movidos a eletricidade, que são transformados em barcaças nos rios e canais, sempre que possível.
Durante os meses de neve intensa, tratores, arados lentos, trenós movidos a energia e os raros navios quebra-gelos, nos rios congelados, eram os únicos transportes, além dos esquis ou trenós individuais. No degelo[6], nenhuma forma de transporte é viável; assim, a maior parte do tráfego é feita com rapidez quando chega o verão. As estradas ficam coalhadas de caravanas. O tráfego é controlado, cada veículo ou grupo deles é obrigado a manter-se em contato constante, através do rádio, com os postos de controle nas barreiras, ao longo do caminho.
Deslocam-se, no entanto, lentamente, na velocidade terrestre de vinte e cinco milhas por hora. Os gethenianos poderiam fazê-los andar mais depressa, mas não o fazem, e se indagados respondem com um: “Por quê?” Assim como os habitantes da Terra, quando se lhes pergunta por que correm tanto, respondem: “Por que não?” Questão de gosto. Os terráqueos gostam do progresso, de ir rápido para a frente. O povo do planeta Inverno, que sempre vive no ano 1, acha que o progresso é menos importante que o indivíduo. Eu estava de acordo com os terráqueos, e, deixando Erhenrang, fiquei impaciente com a marcha lenta, metódica, da caravana. Minha vontade era saltar e sair correndo.
Mas estava contente em me afastar daquelas tortuosas ruas de pedra, ladeirentas e obscurecidas por telhados escuros e torres inumeráveis, daquela cidade sem sol, onde minhas esperanças haviam se transformado em medo e traição.
Ao iniciar a subida dos primeiros contrafortes do Kargav, a caravana fazia paradas curtas, mas freqüentes, para refeições nas estalagens à beira da estrada. Ao entardecer, tivemos a primeira visão completa da cordilheira, de um ponto elevado do contraforte. Vimos o Kostor, que tem quatro milhas de altura, da base ao cume; os imensos despenhadeiros de sua vertente ocidental ocultavam picos ao norte, alguns dos quais se erguiam a trinta mil pés.
Ao sul do Kostor, os picos, um ao lado do outro, se recortavam contra um céu incolor. Contei-os em número de treze, o último se perdendo indefinido na névoa da distância. O guia deu-me o nome dos treze, ao mesmo tempo em que contava histórias de avalanches, carros de carga que eram varridos da estrada por ventos fortíssimos, oriundos das montanhas; tripulações inteiras bloqueadas por nevascas em alturas inacessíveis, etc., etc., num amigável esforço para aterrorizar-me.
Ele descreveu a queda de um desses carros no abismo: “Notável era a lentidão com que ele despencava! Parecia ter levado toda a tarde descendo o abismo, lentamente”. Ele sentiu até alívio ao vê-lo desaparecer, sem nenhum ruído, dentro do lençol de neve que jazia embaixo.
Na 3.a hora, paramos para jantar numa estalagem, vasto salão com grandes e crepitantes lareiras. Sob um teto feito de vigas enormes de madeira, as mesas estavam abarrotadas de comidas gostosas. Não pernoitamos ali; nossa caravana conduzia carro-leito, mas só para os motoristas que se revezavam. Apressamo-nos — à moda karhideana — para sermos os primeiros a chegar à região do Pering Storm e assim colher a nata do creme, como se diz vulgarmente, para nossos negociantes e empreiteiros.
As baterias foram recarregadas, uma nova turma de motoristas substituiu a anterior e seguimos caminho.
Não havia cama para passageiros; passei a noite no assento duro, com apenas uma pausa para cear, numa pequena hospedaria, no alto das montanhas. Karhide não é um país que se preocupe com conforto.
Ao nascer do dia, acordei e vi que tínhamos deixado tudo para trás, exceto rochas, gelo, luz e o estreito passo, sempre ascendente, em cuja trilha seguíamos. Pensei, estremecendo, que há coisas de maior valor que conforto material, a não ser que sejamos mulheres velhas ou gatos. Não havia mais estalagens entre essas aterradoras vertentes de neve e granito. Nas horas das refeições, os carros anfíbios estacionavam silenciosamente, um atrás do outro, em ângulos íngremes, na vertente gelada, e desciam todas as pessoas dos veículos, reunindo-se perto do carro-restaurante, no qual eram servidas, em tigelas, sopas quentes, fatias de pão seco de maçã e cerveja amarga, em canecões. Ficávamos agrupados em torno, batendo com os pés no chão para manter a circulação, engolindo com sofreguidão a comida e a bebida, de costas para o vento cortante que vinha carregado de neve seca. Logo após retomávamos viagem.
Ao meio-dia estávamos no passo de Wehoth, a catorze mil pés de altura, com o termômetro marcando oitenta e dois graus Fahrenheit ao sol e treze à sombra.
Os carros funcionavam tão silenciosamente que se podia ouvir o ruído de avalanches, bem distantes de nós, despencando pelas íngremes encostas azuladas.
Mais tarde chegamos a quinze mil e duzentos pés, o ponto máximo da subida: Eskar. Olhando para a encosta meridional do Kostor, por onde estivéramos como que rastejando lentamente durante todo aquele dia, pude ver uma estranha formação rochosa, muito acima da estrada, como que uma protuberância, semelhante a um castelo.
— Está vendo aquele monastério ali em cima? — perguntou o motorista.
— Aquilo é uma construção?
— Éo Monastério Ariskostor.
— Mas ninguém pode viver naquelas alturas!
— Ah, mas os velhos mestres podem. Eu costumava chefiar uma caravana que lhes levava alimentos de Erhenrang, no último verão. Naturalmente eles não podem entrar, nem sair, por uns dez meses no ano, mas não ligam. Há uns sete ou oito residentes lá.
Contemplei aquela edificação rochosa, solitária na vastidão das alturas, e não acreditei no motorista. Mas por que descrer? Se alguma raça podia sobreviver em atmosfera tão glacial, essa raça era a dos karhideanos.
A estrada de descida serpenteava, ora para o norte, ora para o sul, beirando precipícios, pois a encosta oriental do Kargav é mais íngreme que a ocidental, caindo em plataformas, como uma gigantesca escadaria, na própria formação rochosa da montanha. Ao pôr-do-sol, vimos a uns sete mil pés abaixo de nós, sob uma imensa sombra azulada, uma pequena serpente de pontos escuros se arrastando. Era outra caravana que havia deixado Erhenrang um dia à nossa frente.
Mais tarde chegamos lá, e também deslizávamos suavemente, sem trepidação, para evitar a queda de avalanches. De lá avistava-se, bem abaixo e muito além, pelas bandas de leste, terras extensas que se apresentavam embaçadas por nuvens e pelas sombras projetadas e recortadas pelos filamentos prateados dos seus rios: era a planície de Rer.
Neste quarto dia de partida de Erhenrang, tínhamos chegado a Rer. A separar as duas cidades há uma distância de mil e cem milhas, um paredão escarpado de várias milhas de altura e três mil anos de tempo. A caravana fez uma parada fora dos portões ocidentais, onde seria adaptada em barcaças para navegar nos canais. Nenhuma condução pode entrar em Rer, pois fora construída há mais de vinte séculos, muito antes da invenção dos carros.
Não há ruas em Rer. Há passeios cobertos, como túneis, que no verão podem ser utilizados por dentro ou por cima, como se queira. Casas, ilhas e alojamentos são construídos de modo caótico, numa confusão prodigiosa que culmina, como a anarquia fez em Karhide, em esplendor: as grandes torres do Palácio de Un, cor de sangue e sem janelas. Construído há dezessete séculos, essas torres abrigaram os reis de Karhide por mais de mil anos, até Argaven Harge, o primeiro de sua dinastia que cruzou o Kargav e se instalou no grande vale da vertente ocidental.