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Havia vida neste mundo, vida extravagante na sua quantidade e variedade. Havia aranhas saltadoras nos cumes gelados das montanhas mais altas e vermes comedores de enxofre nos vapores quentes que esguichavam para cima através das escarpas dos leitos dos oceanos. Havia seres que só podiam viver em ácido sulfúrico concentrado e seres que eram destruídos por ácido sulfúrico concentrado; organismos que eram envenenados pelo oxigênio e organismos que sobreviviam exclusivamente no oxigênio, que respiravam, realmente, oxigênio.

Uma forma de vida particular, com um mínimo de inteligência, alastrara recentemente pelo planeta. Tinham postos avançados nos leitos dos oceanos e em órbita a baixa altitude. Tinham enxameado para todos os nichos e escaninhos do seu pequeno mundo. A fronteira que assinalava a transição da noite para o dia estava a desviar-se para ocidente e, obedecendo ao seu movimento, milhões desses seres efetuavam ritualmente as suas abluções matinais. Vestiam sobretudos e dhotis[2]; bebiam infusões de café, chá ou dente-de-leão, conduziam bicicletas, automóveis ou bois; e fugidiamente pensavam em problemas escolares, perspectivas para as plantações vernais e no destino do mundo.

Os primeiros impulsos da seqüência de ondas de rádio insinuaram-se através da atmosfera e das nuvens, embateram na paisagem e foram parcialmente re-refletidos para o espaço. Enquanto a Terra girava debaixo delas, chegaram impulsos sucessivos que invadiram não somente este planeta, mas também todo o sistema. Muito pouca da energia foi interceptada por qualquer dos mundos. A maior parte dela prosseguiu em frente, sem esforço — enquanto a estrela amarela e os seus mundos acompanhantes mergulhavam, numa direção completamente diferente, no negrume de tinta.

Envergando um casaco de dacron com a palavra Marauders por cima de uma estilizada bola de vôlei de feltro, o funcionário de serviço, que iniciava o turno noturno, aproximou-se do edifício de controle. Um grupo de radioastrônomos ia naquele momento a sair para jantar.

— Há quanto tempo andam vocês à procura de homenzinhos verdes? Há mais de cinco anos, não é, Willie?

Brincaram cordialmente com ele, mas o homem detectou uma certa irritação nas suas brincadeiras.

— Dêem-nos uma aberta, Willie — disse outro. — O programa de luminosidade dos quasars vai de vento em popa, mas demorará eternamente se só dispusermos de dois por cento de tempo de telescópio.

— Claro, Jack, claro.

— Willie, estamos a olhar para trás, para a origem do universo. Também há uma grande parada no nosso programa… e nós sabemos que existe ali um universo; vocês não sabem se existe um único homenzinho verde.

— Discutam o assunto com a doutora Arroway. Estou certo de que ela gostará de ouvir a vossa opinião — respondeu com certo azedume.

O funcionário de serviço entrou na área de controle. Fez uma inspeção rápida a dúzias de écrans de televisão que monitorizavam o progresso da radiopesquisa. Tinham acabado de examinar a constelação Hércules. Tinham espreitado para o coração de um grande enxame de galáxias para lá da Via Láctea, o Aglomerado de Hércules — a cem milhões de anos-luz de distância; tinham apontado, à M-13, um enxame de trezentos mil estrelas, mais estrela menos estrela, gravitacionalmente unidas e movendo-se em órbita à volta da Galáxia da Via Láctea a vinte e seis mil anos-luz de distância; tinham examinado Ras Algethi, um sistema duplo, e Zeta e Lambda Herculis algumas estrelas diferentes do Sol, algumas semelhantes, e próximas dele. A maior parte das estrelas que podemos ver a olho nu encontram-se a menos de alguns centos de anos-luz de distância. Haviam monitorizado cuidadosamente centenas de pequenos sectores do céu no interior da constelação de Hércules em mil milhões de freqüências diferentes e não tinham ouvido nada. Em anos anteriores tinham investigado as constelações imediatamente a ocidente de Hércules: Serpens, Corona Borealis, Boõtes, Canes Venatici… e também não tinham ouvido nada.

O funcionário de serviço reparou que alguns dos telescópios estavam orientados para procurar em Hércules alguns dados que faltavam. Os restantes apontavam, como que de olhar enfastiado, para uma extensão adjacente de céu, a constelação seguinte a leste de Hércules. As pessoas do Mediterrâneo Oriental, havia alguns milhares de anos, parecera um instrumento musical de cordas e tinha sido relacionada com o herói da cultura grega Orfeu. Era uma constelação chamada Lira.

Os computadores movimentavam os telescópios para acompanharem as estrelas de Lira desde que nasciam até que se punham, acumulavam os radiofótons, vigiavam a saúde dos telescópios e processavam os dados num formato conveniente para os seus utilizadores humanos. Até um funcionário de serviço era qualquer coisa como uma condescendência. Passando por um frasco de drops, uma máquina de café, uma frase em runas élficas retirada de Tolkien pelo Artificial Intelligence Laboratory de Stanford e um autocolante de pára-choques que dizia «buracos negros estão fora de vista», Willie aproximou-se da consola de comando. Acenou simpaticamente com a cabeça ao funcionário que estivera de serviço de tarde e estava agora a reunir os seus apontamentos e a preparar-se para sair e ir jantar. Em virtude de os dados recolhidos naquele dia estarem convenientemente sumarizados em âmbar no mostrador principal, Ellie não teve necessidade de perguntar quais tinham sido os progressos das horas precedentes.

— Como vê, nada de importante. Houve um pointing glitch — pelo menos era o que parecia — em 1949 —, disse o outro, a apontar vagamente na direção da janela. — O grupo dos quasars libertou os um-dez e um-vinte há cerca de uma hora. Parece que estão a obter dados muito bons.

— Sim, já ouvi dizer. Eles não compreendem…

A sua voz emudeceu quando uma luz de alarme se acendeu com decoro na consola à sua frente. Num mostrador identificado «Intensidade versus Freqüência» subia um aguçado espigão vertical e, é um sinal monocromático.

Outro mostrador, rotulado «intensidade versus Tempo», apresentava um conjunto de impulsos a mover-se da esquerda para a direita e depois a sair do écran.

— Aquilo são números — disse Willie, baixinho. — Alguém está a emitir números.

— Provavelmente, é alguma interferência da Força Aérea. Vi um Awacs, provavelmente de Kinland, cerca das dezesseis horas. Talvez estejam a enganar-nos para se divertirem.

Tinham-se feito acordos solenes para salvaguardar pelo menos algumas radiofreqüências para a astronomia. Mas, precisamente porque essas freqüências constituíam um canal desimpedido, às vezes os militares achavam-nas irresistíveis. Se alguma vez rebentasse a guerra global, talvez os radioastrônomos fossem os primeiros a saber, com as suas janelas abertas para o cosmo a transbordar de ordens para satélites de condução de combate e avaliação de estranhos em órbita geossíncrona e com a transmissão de ordens e lançamento codificadas para distantes postos estratégicos avançados. Mesmo sem nenhum tráfico militar, ao escutar mil milhões de freqüências simultaneamente, os astrônomos tinham de contar com alguma interferência. Relâmpagos, ignições de automóveis e satélites de difusão direta, tudo isto constituía fontes de interferências de rádio. Mas os computadores tinham o seu número, conheciam as suas características e ignoravam-nas sistematicamente. Aos sinais mais ambíguos, o computador escutava-os com maior cuidado e certificava-se de que não correspondiam a nenhuma lista dos dados que estava programado para compreender. De vez em quando passava uma aeronave de inteligência eletrônica em missão de treino — ocasionalmente com um disco de radar recatadamente disfarçado de disco voador na sua garupa — e Argus detectava subitamente sinais inequívocos de vida inteligente. Mas verificava-se sempre tratar-se de vida de uma espécie peculiar e triste, inteligente até certo ponto e apenas muito tangencialmente extraterrestre. Alguns meses antes, um F29E, com medidas defensivas eletrônicas state-of-the-art, sobrevoou-os a dois mil e quatrocentos metros e fez soar os alarmes de todos os cento e trinta e um telescópios. Aos olhos não militares dos astrônomos, a radioassinatura tinha sido suficientemente complexa para poder ser uma plausível primeira mensagem de uma civilização extraterrestre. Verificaram, porém, que o radiotelescópio mais ocidental recebera o sinal um minuto inteiro antes do mais oriental, e depressa se tornou evidente tratar-se de um objeto que atravessava o delgado invólucro de ar que circunda a Terra, e não uma emissão de alguma civilização inimaginavelmente diferente das profundezas do espaço. Este agora era quase com certeza a mesma coisa.

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Tanga usada pelos Hindus na Índia. (N. da T.)