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Entre os cientistas e os burocratas havia uma espécie de mal-estar, um desconforto mútuo, um choque de conjecturas fundamentais. Um dos engenheiros eletrotécnicos chamava-lhe uma impedância mal combinada. Os cientistas, do ponto de vista de muitos dos burocratas, eram excessivamente especulativos, excessivamente quantitativos e excessivamente vagos no modo como falavam às outras pessoas. Do ponto de vista de muitos dos cientistas, os burocratas eram excessivamente inimaginativos, excessivamente qualitativos e excessivamente incomunicativos. Ellie, e em especial Der Heer, esforçavam-se muito por construir uma ponte sobre essa brecha, mas os pontões estavam constantemente a ser arrastados pela corrente abaixo.

Naquela noite havia pontas de cigarros e chávenas de café por toda a parte. Cientistas despreocupadamente vestidos, funcionários de Washington e fatos leves e um ou outro militar de alta patente enchiam a sala de controle, a sala dos seminários e o pequeno auditório e extravasavam para o exterior, onde, à luz das brasas dos cigarros e das estrelas, algumas das discussões continuavam. Mas os ânimos estavam esfrangalhados. A tensão começava a notar-se.

— Doutora Arroway, este é Michael Kitz, secretário-adjunto da Defesa do C3i.

Ao introduzir Kitz e colocar-se a si próprio apenas um passo atrás dele, Der Heer estava a comunicar… o quê? Alguma inverossímil mistura de emoções. A confusão nos braços da prudência? Parecia apelar para a contenção. Julgá-la-ia assim tão estouvada? «C3i» — que proferiam «cê ao cubo 3i» — queria dizer Command, Control, Communications and Intelligence[3], responsabilidades importantes numa altura em que os Estados Unidos e a União Soviética estavam resolutamente a efetuar grandes reduções faseadas nos seus arsenais nucleares estratégicos. Era trabalho para um homem cauteloso.

Kitz instalou-se numa das duas cadeiras do outro lado da secretária de Ellie, inclinou-se para a frente e leu a citação de Kafka. Não ficou impressionado.

— Doutora Arroway, permita que vá direito ao assunto. Estamos preocupados quanto a se é no melhor interesse dos Estados Unidos que esta informação seja geralmente conhecida. Não ficamos loucos de alegria quando soubemos que enviara aquele telegrama a todo o mundo.

— Refere-se à China? À União Soviética? À Índia? — A sua voz, não obstante os esforços que fazia para o evitar, tinha uma certa contundência detectável. — Queria conservar secretos os primeiros duzentos e sessenta e um números primos? Supõe, Mister Kitz, que os extraterrestres pretendiam comunicar apenas com americanos? Não acha que uma mensagem de outra civilização pertence ao mundo inteiro?

— Podia ter pedido a nossa opinião.

— E correr o risco de perder o sinal? Escute, por tudo quanto sabemos, algo de essencial, algo de único, pode ter sido transmitido depois de Vega se ter posto aqui, no Novo México, mas quando ainda estava alta, no céu, sobre Beijing. Estes sinais não são exatamente um telefonema pessoa a pessoa para os EUA. Não são sequer um telefonema pessoa a pessoa para a Terra. São de estação para estação de qualquer planeta do sistema solar. Sucedeu apenas que tivemos a sorte de levantar o auscultador do telefone.

Der Heer estava de novo a «transmitir» qualquer coisa.

Que tentava ele dizer-lhe? Que gostava daquela analogia elementar, mas que tivesse calma com Kitz?

— De qualquer modo — continuou Ellie —, é tarde demais. Agora já toda a gente sabe que existe uma espécie qualquer de vida inteligente no sistema Vega.

— Não tenho a certeza de que seja tarde demais, doutora Arroway. A senhora parece pensar que ainda está para chegar qualquer transmissão rica de informação, uma mensagem. Aqui, o doutor Der Heer — fez uma pausa, a escutar a assonância inesperada —, o doutor Der Heer diz que a doutora pensa que os números primos são um anúncio, qualquer coisa para nos levar a prestar atenção. Se há uma mensagem e é sutil — algo que esses outros países não detectariam imediatamente —, quero que seja mantida em segredo até podermos falar a seu respeito.

— Muitos de nós temos quereres, Mister Kitz — deu consigo a dizer suavemente, ignorando as sobrancelhas arqueadas de Der Heer. Havia algo de irritante, quase de provocante, na atitude de Kitz e provavelmente também na dela. Eu, por exemplo, quero compreender qual é o significado do sinal, e o que está a acontecer em Vega, e o que isso significa para a Terra. É possível que cientistas de outras nações sejam a chave para essa compreensão. Talvez nós precisemos dos dados recolhidos por eles. Talvez precisemos dos seus cérebros. Eu fui capaz de imaginar que isto poderia ser um problema demasiado grande para ser resolvido por um só país.

Der Heer parecia ligeiramente alarmado.

— Bem, doutora Arroway, a sugestão do secretário Kitz não é assim tão desrazoável. É muito possível que colaboremos com outras nações. Tudo quanto ele pede é que converse primeiro conosco acerca do assunto. E isso apenas se houver uma nova mensagem.

O seu tom era tranqüilizador, mas não untuoso. Ela olhou-o de novo com atenção. Der Heer não era um homem claramente bonito, mas tinha um rosto bondoso e inteligente. Vestia fato azul e camisa impecável. O calor do seu sorriso moderava a sua seriedade e o seu ar de autodomínio. Por que motivo estava ele, então, a manifestar-se a favor daquele imbecil? Fazia parte do seu trabalho? Seria possível que Kitz estivesse a falar com lógica?

— De qualquer modo, trata-se de uma contingência remota. — Kitz suspirou enquanto se levantava. — O secretário da Defesa apreciaria a sua cooperação. — Estava a tentar mostrar-se cativante. — Combinado?

— Deixe-me pensar no assunto — respondeu ela, e apertou-lhe a mão estendida como se fosse um peixe morto.

— Eu vou já, daqui a poucos minutos, Mike — disse Der Heer, sorridente.

Com a mão na ombreira da porta, Kitz deu a impressão de que lhe acudia um pensamento novo, tirou um documento da algibeira interior do peito, voltou para trás e colocou-o desajeitadamente no canto da secretária dela.

— Ah, sim, já me esquecia! Está aqui uma cópia da Decisão Hadden. Provavelmente conhece-a. É acerca do direito do Governo de considerar secreto material vital para a segurança dos Estados Unidos. Mesmo que a sua origem não tenha ocorrido numa instituição secreta.

— Quer tornar secretos os números primos? — perguntou ela, de olhos muito abertos, numa incredulidade irônica.

— Espero por si lá fora, Ken.

Ellie começou a falar logo que Kitz saiu do seu gabinete:

— Que fareja ele? Raios letais de Vega? Alguma coisa que faça ir o mundo pelos ares? De que se trata, na realidade?

— Ele está apenas a ser prudente, Ellie. Percebo que você não ache que seja só isso. Muito bem. Suponha que há alguma mensagem — com verdadeiro conteúdo, compreende? E nela existe alguma coisa ofensiva para muçulmanos, por exemplo, ou para metodistas. Não deveríamos divulgá-la cuidadosamente, para que os Estados Unidos não ficassem com um olho negro?

— Ken, não me venha com tretas. Aquele homem é um assistente do secretário da Defesa. Se eles estivessem preocupados com muçulmanos ou metodistas, ter-me-iam enviado um assistente do secretário de Estado, ou — não sei — um desses fanáticos religiosos que presidem a pequenos-almoços presidenciais de orações. Você é o conselheiro científico da presidente. Que lhe aconselhou?

— Não lhe aconselhei nada. Desde que estou aqui, só falei com ele uma vez, brevemente, pelo telefone. E serei franco consigo: ele não me deu instruções nenhumas a respeito de sigilo. Na minha opinião, o que Kitz disse não tem fundamento. Ele está a agir por sua conta.

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3

Como este livro trata da inteligência humana e da inteligência extraterrestre, convém esclarecer que esta Intelligence aqui é outra e se traduz por «informação»: serviços de informação ou, menos eufemisticamente, espionagem (N. da T.)