Durante décadas, depois de 1945, o arsenal mundial de armas nucleares estratégicas aumentara sistematicamente. Os dirigentes mudavam, os sistemas de armamento mudavam, a estratégia mudava, mas o número de armas estratégicas, esse, só aumentava. Chegou uma altura em que havia mais de vinte e cinco mil no planeta, dez para cada cidade. A tecnologia estava a empurrar no sentido de tempo de vôo curto, incentivos para ard-target-first strike e, pelo menos, launch-on-Warning de fato. Só um perigo tão monumental podia anular uma insensatez tão monumental, apoiada por tantos líderes em tantas nações durante tanto tempo. Mas, finalmente, o mundo recuperou a lucidez, pelo menos até determinado ponto, e foi assinado um acordo pelos Estados Unidos da América, a União Soviética, a Inglaterra, a França e a China. Não se destinava a libertar o mundo das armas nucleares. Poucos esperavam que trouxesse na sua esteira alguma utopia. Mas os Americanos e os Soviéticos comprometeram-se a reduzir os seus arsenais estratégicos para mil armas nucleares cada. Os pormenores foram cuidadosamente concebidos, de modo que nenhuma das superpotências se encontrasse em desvantagem significativa em qualquer estágio do processo de redução.
A Inglaterra, a França e a China acordaram em começar a reduzir os seus arsenais quando as superpotências tivessem descido abaixo do nível das três mil e duzentas unidades. Os Acordos de Hiroxima foram assinados, com júbilo mundial, junto da famosa placa em memória das vítimas da primeira cidade obliterada por uma arma nuclear: «Descansai em paz, pois não voltará a acontecer!»
Todos os dias, os ativadores de cisão de um número igual de ogivas nucleares dos Estados Unidos da América e da União Soviética eram entregues numa instalação especial dirigida por técnicos americanos e russos. O plutônio era extraído, registrado, selado e transportado por equipes bilaterais para centrais de energia nuclear onde era consumido e convertido em eletricidade. Este esquema, conhecido por Plano de Gayler, em homenagem a um almirante americano, era largamente aclamado como a última palavra na transformação de espadas em relhas de arado. Como cada nação ainda conservava uma capacidade de retaliação devastadora, até os estabelecimentos militares acabaram eventualmente por concordar com o sistema. Os generais não desejam mais do que qualquer outra pessoa que os seus filhos morram, e a guerra nuclear é a negação das virtudes militares convencionais; é difícil encontrar muita coragem no ato de carregar num botão. A primeira cerimônia de despojamento — filmada pela televisão, transmitida em direto e retransmitida muitas vezes — apresentava técnicos americanos e soviéticos vestidos de branco transportados em dois dos objetos metálicos cinzento-baços, cada um quase do tamanho de uma otomana e variadamente engalanados com estrelas e riscas e foices e martelos. Foi vista por uma enorme fração da população mundial. Os telejornais noturnos anunciavam regularmente quantas ameaças estratégicas de ambos os lados tinham sido desmanteladas e quantas mais iam sê-lo. Dentro de pouco mais de duas décadas, estas notícias também chegariam a Vega.
Nos anos seguintes, as desativações continuaram, quase sem nenhum problema. Ao princípio, o excesso nos arsenais foi anulado, com pouca mudança na doutrina estratégica; mas agora os cortes estavam a ser sentidos e os sistemas de armas mais desestabilizadores estavam a ser desmantelados. Tratava-se de algo que os peritos tinham classificado de impossível e declarado «contrário à natureza humana». Mas uma sentença de morte, como Samuel Johnson observara, faz concentrar a mente de maneira maravilhosa. No último meio ano, o desmantelamento de armas nucleares pelos Estados Unidos e pela União Soviética dera importantes passos novos, com equipes de inspeção intrusivas de cada nação a serem em breve instaladas no território da outra — apesar da desaprovação e preocupação publicamente manifestadas pelos estados-maiores militares de ambas as potências. As Nações Unidas revelaram-se inesperadamente eficientes na mediação de disputas internacionais, com as guerras fronteiriças oeste-iraniana e Chile-Argentina ambas aparentemente resolvidas. Falava-se até, e não se tratava de conversa inteiramente estulta, de um tratado de não agressão entre a NATO e o Pacto de Varsóvia.
Os delegados que chegavam para a primeira sessão plenária do Consórcio Mundial da Mensagem vinham predispostos para a cordialidade numa medida sem paralelo em décadas recentes.
Cada nação possuidora nem que fosse apenas de um punhado de bits da Mensagem estava representada, tendo enviado delegados tanto científicos como políticos; um número surpreendente enviou também representantes militares. Nalguns casos, poucos, as delegações nacionais eram chefiadas por ministros dos Estrangeiros ou até por Chefes de Estado. A delegação do Reino Unido incluía o visconde Boxforth, Lorde do Selo Privado — título que, intimamente, Ellie achava hilariante[10]. A delegação da URSS era chefiada por B. Ya Abukhimov, presidente da Academia de Ciências Soviética, com Gotsridze, ministro da Indústria Meio-Pesada, e Arkhangelsky a desempenharem papéis significativos. A presidente dos Estados Unidos insistira em que Der Heer chefiasse a delegação americana, embora ela incluísse o subsecretário de Estado Elmo Honicutt e Michael Kitz, entre outros, em representação do Departamento da Defesa.
Um enorme e complicado mapa em projeção de área igual mostrava a disposição dos radiotelescópios no planeta, incluindo os navios oceânicos rastreadores soviéticos. Ellie olhou em redor do recém-concluído salão de conferências, adjacente aos gabinetes e à residência do presidente da França. Ainda apenas no segundo ano do seu mandato de sete anos, ele estava a fazer todos os esforços para assegurar o êxito da reunião. Uma multitude de rostos, bandeiras e uniformes nacionais refletia-se das compridas e curvas mesas de mogno e das paredes espelhadas. Ellie reconheceu poucas das pessoas dos campos político e militar, mas em cada delegação parecia encontrar-se pelo menos um cientista ou engenheiro familiar: Annunziata e Ian Broderick, da Austrália; Fedirka, da Checoslováquia; Braude, Crebillon e Boileau, da França; Kumar Chandrapurana e Devi Sukhavati, da Índia; Hironaga e Matsui, do Japão… Pensou nos fortes antecedentes tecnológicos, mais do que radioastronômicos, de muitos dos delegados, especialmente dos japoneses. A idéia de que a construção de alguma imensa máquina poderia fazer parte da agenda da reunião originara mudanças de última hora na composição das delegações.
Reconheceu também Matesta, da Itália; Bedenbaugh, um físico que se metera na política, Clegg e o venerando Sir Arthur Chatos a conversar atrás do tipo de bandeira inglesa que se encontra em mesas de restaurantes em estâncias européias; Jaime Ortiz, de Espanha; Prebula, da Suíça — o que era intrigante, uma vez que a Suíça, que ela soubesse, não tinha sequer um radiotelescópio; Bao, que organizara brilhantemente a distribuição de radiotelescópios chineses, e Wintergarden, da Suécia. Havia delegações sauditas, paquistanesas e iraquianas surpreendentemente grandes e, evidentemente, os soviéticos, entre os quais Nadya Rozhdestvenskaya e Genrikh Arkhangelsky compartilhavam um momento de genuína hilaridade.
Ellie olhou à procura de Lunacharsky e finalmente localizou-o com a delegação chinesa. Estava a apertar a mão a Yu Renqiong, diretor do Radiobservatório de Beijing. Lembrava-se de que os dois homens tinham sido amigos e colegas durante o período da cooperação sino-soviética. Mas as hostilidades entre as duas respectivas nações tinham posto fim a qualquer contato entre eles e as restrições das autoridades chinesas às viagens ao estrangeiro dos seus cientistas mais importantes ainda eram quase tão rigorosas como as soviéticas. Ellie compreendeu que estava a testemunhar o primeiro encontro dos dois ao fim de, talvez, um quarto de século.
10
A hilaridade devia-se ao fato de Lorde do Selo Privado (funcionário que tem a seu cargo o uso do selo do Estado em assuntos de pequena importância) se dizer em inglês Lord Privy Seal, e privy também significar «latrina». (N. da T.)