A cada terceira coluna, na altura de quase quatro metros, havia frisos que sustentavam estátuas de tamanho descomunal. Com trajes pintados de um colorido vivo, elas olhavam de forma solene para os passantes a seus pés. Algumas delas eram guarnecidas de joias douradas. Farodin se perguntou se representavam deuses ou mercadores especialmente bem-sucedidos.
Um pouco à frente soaram lamentações de cortar o coração. Logo chegaram a uma praça onde estavam montadas barracas de feira de tecido colorido. Cada uma delas estava equipada com dúzias de ânforas.
— Um mercado de vinho! — alegrou-se Mandred. — Todas essas ânforas estão cheias da bebida.
Um vendedor magro de nariz vermelho acenou amigavelmente para ele, erguendo um copo de barro.
— Ele está me convidando para provar!
Nuramon apontou para uma estaca que subia bem alto por cima das barracas. Uma jovem mulher estava espetada nela. Tinham rasgado as roupas de seu corpo, que estava todo coberto de fios de sangue. Ela gemia baixo. No momento em que Farodin olhou para cima, viu como o peso do próprio corpo dela fez a ponta da estaca penetrar um pouco mais fundo em sua carne, fazendo-a estremecer.
— Você quer mesmo beber aqui? — perguntou Nuramon.
Mandred virou-se com repulsa.
— Por que estão fazendo isso? Que crime essa mulher pode ter cometido? Uma cidade tão bonita... E agora isso. Talvez ela seja uma assassina de crianças?
— Ah! Isso com certeza justificaria torturá-la até a morte de forma assim tão bestial. Como pude não perceber isso? — retrucou Farodin, de forma mais ríspida do que deveria.
Que culpa tinha Mandred pela atrocidade do soberano de Iskendria?
Em silêncio, seguiram no meio da multidão ao longo da rua luxuosa, quando a turba ao redor deles de repente foi tomada pela inquietação. Bem próximo dali soavam batidas de tambores e o som claro de pratos. Os humanos ali em volta recuaram até as colunas. A gritaria dos comerciantes e a conversa dos passantes cessaram. De repente, a rua ficou vazia. Só restaram eles três ali.
— Ei, estrangeiro! — Um homem louro e robusto saiu das fileiras de gente. — Fora daí! — disse na língua de Fargon. — A rainha de hoje está vindo!
Vinda de uma ampla rua lateral, uma procissão virou na rua das colunas. Meninas de vestidos muito brancos vinham na frente, espalhando pétalas de rosas sobre o pavimento.
Os três companheiros se apressaram em sair da rua. O homem louro espremeu-se ao lado deles. Seu rosto estava coberto por uma barba de vários dias e nele brilhavam olhos azuis como o céu.
— Vocês são estrangeiros, não são? Aposto que chegaram hoje mesmo à cidade. Vocês precisam de um guia. Ao menos para os primeiros dias, até que consigam se orientar aqui e que tenham aprendido as leis de Iskendria.
As meninas das flores eram seguidas por uma tropa de soldados com armaduras de cobre no peito e elmos que balançavam tufos de penas. Carregavam grandes escudos redondos, nos quais estava pintado o rosto ameaçador de um homem barbado. Estranhamente, seguravam suas lanças ao contrário, apontadas para o chão. Dos seus ombros pendiam capas pretas com um largo debrum de bordados dourados. Farodin nunca vira no mundo dos homens guerreiros tão suntuosamente equipados. Eles caminhavam cerimoniosamente sobre as pétalas.
— Os guardas do templo — esclareceu o guia, que era como ele mesmo havia se denominado. — Bonito de ver, mas são um bando ruim. É melhor não se pôr no caminho deles, ou vai parar em cima do mercado de cavalos fácil, fácil.
— E o que há de tão ruim no mercado de cavalos de vocês? — perguntou Mandred.
— Eles prendem o atrevido em uma gaiola de ferro, penduram-no em um mastro e deixam-no morrer à míngua. Isso se tiver sorte. Se tiver ofendido Balbar, padroeiro da cidade, então eles destroçam braços e pernas com barras de ferro e acorrentam o infeliz na pedra dos hereges, na praça do mercado, para que apodreça vivo. Isso se resistir ao ataque dos cães à noite...
Enojado, Farodin virou-se na direção da procissão, enquanto Mandred escutava avidamente as histórias do estranho. O próximo grupo a passar era composto de homens de pele escura vestindo saias vermelhas, que traziam grandes tambores atados aos quadris. Tocavam um lento compasso de marcha, marcando o tempo em que a parada se movia.
Uma enorme liteira aberta, carregada por ao menos quarenta escravos, passou pela rua. Sobre ela havia um grande trono dourado, ladeado por dois sacerdotes de cabeças raspadas. Nele estava afundada uma jovem garota, com o rosto maquiado em cores fortes. Ela olhava para baixo, para a multidão, de forma apática.
— Ela não é bonita? — perguntou o louro com um leve toque de cinismo. — Dentro de uma hora ela estará frente a frente com Balbar. — E, baixando a voz até que se tornasse um murmúrio: — Eles deram vinho e ópio a ela. Mas só o suficiente para que ela não durma durante a procissão e esteja consciente quando enfrentar Balbar. Vocês deviam ver isso, pois assim entenderiam Iskendria melhor.
Seguindo a liteira vinha um grupo de mulheres vestidas de preto, todas usando máscaras com caretas horríveis. Rostos paralisados em gritos de sofrimento, dor e luto.
— Então ela realmente vai encontrar um deus e todos vão poder assistir? — perguntou Mandred, curioso.
— Você pode apostar o seu traseiro nisso, amigo do norte. Aliás, meu nome é Zimon de Malvena. Eu não quero importuná-los com insistências, mas acreditem em mim: seria bem aconselhável que vocês tivessem um guia.
Nuramon pôs uma moeda de prata em sua mão.
— Conte-nos tudo que precisamos saber sobre a cidade.
A procissão já havia passado. Logo o barulho era geral.
— Vamos até a praça da casa do céu — Zimon fez um sinal na direção da rua e eles seguiram a procissão.
— O que os traz a Iskendria, estimados senhores? Estão procurando alguém que precise dos seus serviços como espadachins? Nas caravançarás[4] é fácil encontrar senhorios. Posso levá-los até lá.
— Não — respondeu Mandred, amigável. — Nós queremos ir até a biblioteca.
Farodin encolheu por dentro. Em momentos como esse, seria capaz de bater em Mandred. O que eles procuravam não dizia respeito a esse tipo suspeito!
— A biblioteca? — Zimon examinou Mandred, admirado. — Você me espanta, estrangeiro. Ela fica perto do porto. Dizem que lá está reunido o conhecimento do mundo inteiro. Ela tem mais de trezentos anos de idade e dispõe de mais de mil pergaminhos. Não há nenhuma pergunta cuja resposta você não encontre lá.
Farodin e Nuramon trocaram um olhar expressivo. Uma biblioteca de humanos onde se encontrava a resposta a todas as perguntas! Isso era tão provável quanto um cavalo que botasse ovos. E era realmente notável que houvesse uma biblioteca como essa justamente em Iskendria. Seria ela um reflexo distante do que se escondia ali, do outro lado da estrela dos albos, no Mundo Partido?
Chegaram a uma ampla praça, no centro da qual havia uma estátua de mais de vinte pés de altura. Ela mostrava um homem com uma barba longa, aparada de forma angulosa, sentado em um trono. Os braços da imagem descansavam em seu colo, estranhamente curvados. As mãos estavam abertas como se ele esperasse que depositassem oferendas nelas. De fato, uma rampa de madeira subia até suas mãos. A boca era escancarada como se quisesse gritar e dela brotava uma fumaça clara.
Atrás da representação do deus erguia-se um templo cujas colunas da altura do céu eram pintadas de púrpura e coroadas por capitéis guarnecidos de ouro. No frontão do templo havia um alto-relevo, pintado com cores fortes, que mostrava Balbar caminhando sobre do mar. Seus enormes punhos destroçavam galeras.